Arquivo para outubro, 2011

Nunca foi segredo. [2]

Então… Fiquei devendo contar sobre o segundo evento que realinhou as órbitas dos planetas do meu mapa astral. Foi algo que, de alguma forma, eu sempre soube que aconteceria. Só não esperava que acontecesse. É sobre os meus:

Já devo ter comentado a respeito aqui ou no antigo blog sobre meus três grandes amigos que são quase irmãos: C., que é meu colega desde a 1ª série do fundamental, R., que se tornou meu amigo advindo da amizade que ele tinha com o C., e a G., que se tornou minha amiga e escudeira desde a 8ª série. Tenho outras amigas que considero do peito, claro. Entretanto, nós quatro éramos de tal maneira tão unidos, que ficamos conhecidos como “o quarteto” (quase fantástico).

Eis que sexta feira a noite, na mesma semana do fatídico evento do outing no cursinho, estávamos eu, C., R. e A. (que é uma amiga mais próxima dos dois) no carro. Voltávamos do cinema após ter assistido “Amizade Colorida”. Gostei do filme, saí teorizando e tagarelando sobre, mas com o tempo, fui notando que havia um clima meio estranho no ar. Eu não sabia, mas, o propósito daquela noite não era ver o filme. C. estava num misto de ansiedade, nervosismo e euforia que eu já mais tinha visto. R. e A. também apresentavam os mesmos sintomas, só que mais brandos. Entre trocas de olhares, mensagens de celular, risadas e pensamentos rolando na minha cabeça a mil por hora, perdi a paciência e pedi para que me contassem logo o que estava acontecendo. E contaram.

Ou melhor, contou. C. contou pra mim que era gay.

Tá, né? Ele já tinha contado para A. e R. e eu era o escolhido daquela noite. Vem então R. poucos segundos depois e também arreganha as portas do seu armário. HOW ASSIM, GOD? Fomos pra um outro lugar pra poder conversar melhor pois estávamos todos, completamente em estado de choque depois daquela.

No fundo, aquilo não era razão pra tanto big deal. Sempre desconfiei um pouco do C. – na verdade eu e a torcida do Flamengo. Creio que não era só dele que desconfiavam, deviam desconfiar de mim e do R. desde o princípio também. As razões eram óbvias: por sermos mais “mente aberta” com relação a milhares de coisas, por termos certos gostos um tanto quanto diversificados, por gostarmos de um humor um pouco mais ácido do que o convencional, por andarmos sempre em grupo, por sempre sobrarmos na escalação dos times de futebol da E.F., dentre outros pequenos clichês que – apesar de eu não gostar de admitir isso (porque não acho que devemos ser generalistas e preconceituosos) – entregavam que havia “algo de diferentchy” conosco.

Por muitos tempo esse assunto da homossexualidade foi meio que um tabu entre nós três. Não a homossexualidade alheia, mas sim a nossa, escondida e trancafiada a sete chaves. Os dois se descobriram juntos, tiveram as primeiras experiências juntos e confessaram suas crises e angústias um para o outro esse tempo todo. Teve um inesquecível dia em que fomos ao sítio do R. (quando estávamos no 2º ano do E.M.) e eu peguei os dois no pulo do gato. Eles juraram pra mim de pés juntos que aquilo era só carência, que nunca tinha acontecido e nem nunca mais iria acontecer. E eu fui proibido de tocar no assunto. Até recentemente, assim foi. Eu sofri por muito tempo calado, tentando negar os sinais que eu via graças ao meu gaydar super calibrado.

Se tem uma coisa pela qual eu me arrependeria caso tivesse me matado naquela fatídica noite de junho de 2010, seria de não ter vivido esse dia em Outubro de 2011. Isso é a comprovação do “It Gets Better”. Eu jamais poderia imaginar que meus dois amigos finalmente se abririam pra mim, que um dia eu poderia deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz com a minha consciência. Eu nunca fui louco, não tinha visto coisas ou criado teorias da conspiração da minha cabeça. Não havia mais nada de oculto. De agora em diante, teríamos todo um repertório de assuntos os quais eu poderíamos conversar abertamente sem se preocupar com repercussões.

R., o famoso capricorniano sobre o qual já escrevi aqui, nunca vi mais leonino dada a clareza, a sinceridade e exaltação com a qual conversava. Contou histórias que eu jamais esperei que saíssem de sua boca. Eu pude ver que em diversos momentos no passado ele quis ter sido sincero comigo, me “confessando” suas aventuras ainda que com nomes de pessoas e lugares trocados. E como eu fui bobo de pensar que meus dois melhores amigos só queriam me enganar. Se é que algum dia eu exigi que as pessoas fossem estritamente sinceras comigo, esse dia já passou e eu já me esqueci dele.

Minha autoestima subiu o Monte Everest naquela noite. Senti pela primeira vez na vida que eles – principalmente R., que sempre jogou às escuras comigo – estavam confiando 100% em mim. Ver as coisas por essa perspectiva me deu ânimo e coragem. Alguns dias depois nós fomos juntos numa buatchy gê-eli-esse (eu, virgem desse tipo de ambiente) e vi os dois pegando outros carinhas (me diverti muito, mas infelizmente continuo no zero a zero). Compartilhamos nosso vasto conhecimento a respeito de Bel Ami, Men at Play, Randy Blue, Sean Cody, algo que só um legítimo bando de viados poderia fazer.

Agora eu entendo tanta coisa que eu não entendia antes… Percebi que nosso grupo ainda é o mesmo, apesar de agora o contexto ser diferente. A depressão pela qual eu passei foi muito forte, muito intensa, foi (está sendo) difícil sair dela. Mas percebi que a mesma coisa também é válida para o o estado de espírito oposto. Me sinto mais confiante agora pra entrar na parte do “It Doesn’t Get Better”, que diz respeito aos meus problemas mais profundos – como por exemplo ir na buatchy e não me permitir ficar com ninguém. Mas isso são cenas dos próximos capítulos (?).

Essa música sintetiza o momento.

Hugs to everyone, that’s all for tonight.


Nunca foi segredo.

Eu fiquei um bom tempo sem escrever aqui. Praticamente abandonei o blog – apesar de sempre acessar os blogs irmãos – que tenho ali do lado – e os primos. A verdade é que não houve muito o que comentar sobre os últimos meses. Decidi me candidatar a uma vaga do curso Farmácia. Estou confiante que este é o curso que deveria ter feito e espero que dessa vez eu acerte o alvo, pois o meu pente de balas já deve estar no fim.

Entrei no cursinho de novo, e desde então estou vivendo e deixando viver (até fiz amigos lá, vocês acreditam?). Estou muito tranquilo com relação ao vestibular. Descobri que a prova do ENEM não é um bicho de sete cabeças (fui muito bem no simulado que eu fiz), que ainda preservo grande parte do conhecimento que adquiri no E.M. e que a chance de eu conseguir passar é boa, uma vez que a concorrência do curso de Farmácia é quase desprezível.

Mas se está tudo assim tão “movimentado” na minha vida, porque eu voltei a escrever aqui? Pois bem, não houve horóscopo que me avisasse sobre os acontecimentos da última semana. Se houvesse, ele seria desnecessário – eu sempre soube que um dia isto aconteceria, só não sabia quando e como. Vamos começar pela história do professor de história. Parece ironia do destino, mas sabe a tirinha que eu coloquei no último post? Pois é, ocorreu comigo situação semelhante, a diferença é que a conversa não se deu entre duas pessoas, mas sim entre um aluno, um professor e uma sala de aproximadamente 100 pré-vestibulandos.

Percebi que naquele dia o professor de história, sempre bem humorado e piadista, estava com uma expressão soturna no rosto. Achei aquilo estranho. Talvez ele tivesse terminado com a namorada, um parente próximo morrido ou então o time dele perdido no jogo da noite passada. O mal “humor” dele já tinha me contagiado, pois em suas aulas eu tinha certeza do ânimo e das risadas. Eis então que ele começa a escrever no quadro e fica uns cinco minutos assim, sem trocar uma palavra com a turma. Quase todo mundo estava copiando. Dentre as exceções estava eu, que muito provavelmente deveria estar com os braços cruzados, prestando atenção (eu absorvo melhor os conteúdos assim). Talvez a distinção do meu comportamento chamou a atenção do professor.

Ele começa a “aula” me perguntando se eu torcia para o atlético ou para o cruzeiro. Eu, sem um pingo de maldade, respondi que era indiferente aos dois times. Justifico que na minha casa, o único fanático por futebol era meu avô e também que, nos últimos meses, o futebol mineiro não tinha sido motivo de muito orgulho. O questionamento óbvio que qualquer indivíduo brasileiro, na faixa dos 25~30 anos, heterossexual e com Q.I. menor que 100 faria a seguir era sobre a minha sexualidade, claro. E ele me manda: você gosta de homem ou de mulher?

[…]

DEVIA SER PROIBIDO FAZER ESSA PORRA DE PERGUNTA NUMA SALA DE AULA, CARALHO! By the way, SOU GAY e gosto de PÊNIS!

Queria eu que essa fosse a minha resposta. Mas não. Em situações como essa, de descontrole emocional inadvertido, eu sempre tenho que procurar o jeito mais “WTF?” de reagir. E respondo que “não queria entrar no mérito da questão”.

COMO ASSIM, FILHO DA PUTA?

Na hora não registrei a reação das pessoas na sala. Só conseguia perceber o quanto eu estava nervoso, suando como se aquele lugar fosse o deserto do Saara, e tentando passar a expressão de normalidade, apesar dessa não existir. Eu sabia que tinha exposto para todos naquela sala minha condição sexual, ainda que não usando as palavras exatas. Até aquele instante, eu era assumido só para amigos mais próximos e (talvez) alguns parentes. Depois desse dia, ficou escrito na pedra do firmamento: “E ele assume a homossexualidade para o mundo”. Foi um tiro no pé, uma auto-queimação de filme? Não sei. Só sei que contar uma mentira ali seria impossível para mim. Esse é um dos meus defeitos, não consigo falar mentira.

Perto de mim estava meu amigo, R., que estudou na mesma turma que eu no colégio e agora está mudando de curso junto comigo, e meus novos “colegas” – chamá-los de amigos, como fiz no início do texto é exagero – do cursinho. Ninguém falou nada, e por um bom tempo, o silêncio prevaleceu, até que o professor mudasse de assunto e contasse uma piada qualquer para descontrair a turma. Naquele mesmo dia eu ainda tentei conversar com esses meus colegas, mas nos dias seguintes eu vi que o tratamento deles para comigo, ainda que de forma discreta, mudou.

Acredito que eles se sentiram traídos, pois eu não tinha comentado com os mesmos a respeito da minha homossexualidade. Na quinta feira, como R. não tinha ido à aula, não conversei com ninguém tampouco alguém quis conversar comigo. Resultado: minha autoestima caiu uns anos-luz. Chegou a sexta feira e eu, macaco velho de crises depressivas, decidi mandar o mundo tomar no cu e fui para a aula animado. Não estava lá para depender da opinião das pessoas, mas sim para me preparar para o vestibular.

Acabou que no fim das contas, essa minha saída forçada do armário para a sala do cursinho foi uma experimentação do que muitos gays devem passar diariamente com a sociedade. Muitos já devem estar calejados da exposição gratuita, saem por aí com seus parceiros, tomam surra de lâmpada fluorescente na cara e levantam bandeiras do arco-íris no outro dia. Não fiquei tão abalado como achei que ia ficar, mas também não fiquei tão indiferente. Na minha vida, o sentimento de inadequação é um fator constante. Graças a ele, por mais “mente aberta e progressista” que eu aparente ser aqui no blog – e sou mesmo – ainda suo frio quando as pessoas voltam seus olhares para mim.

Teve ainda um outro acontecimento na mesma semana que balançou os planetas do meu mapa astral, mas fico devendo pra vocês essa história no próximo post.

Abraços!

(Senti saudades do blog e dos comentários).