Amigos e Relacionamentos

Nunca foi segredo. [2]

Então… Fiquei devendo contar sobre o segundo evento que realinhou as órbitas dos planetas do meu mapa astral. Foi algo que, de alguma forma, eu sempre soube que aconteceria. Só não esperava que acontecesse. É sobre os meus:

Já devo ter comentado a respeito aqui ou no antigo blog sobre meus três grandes amigos que são quase irmãos: C., que é meu colega desde a 1ª série do fundamental, R., que se tornou meu amigo advindo da amizade que ele tinha com o C., e a G., que se tornou minha amiga e escudeira desde a 8ª série. Tenho outras amigas que considero do peito, claro. Entretanto, nós quatro éramos de tal maneira tão unidos, que ficamos conhecidos como “o quarteto” (quase fantástico).

Eis que sexta feira a noite, na mesma semana do fatídico evento do outing no cursinho, estávamos eu, C., R. e A. (que é uma amiga mais próxima dos dois) no carro. Voltávamos do cinema após ter assistido “Amizade Colorida”. Gostei do filme, saí teorizando e tagarelando sobre, mas com o tempo, fui notando que havia um clima meio estranho no ar. Eu não sabia, mas, o propósito daquela noite não era ver o filme. C. estava num misto de ansiedade, nervosismo e euforia que eu já mais tinha visto. R. e A. também apresentavam os mesmos sintomas, só que mais brandos. Entre trocas de olhares, mensagens de celular, risadas e pensamentos rolando na minha cabeça a mil por hora, perdi a paciência e pedi para que me contassem logo o que estava acontecendo. E contaram.

Ou melhor, contou. C. contou pra mim que era gay.

Tá, né? Ele já tinha contado para A. e R. e eu era o escolhido daquela noite. Vem então R. poucos segundos depois e também arreganha as portas do seu armário. HOW ASSIM, GOD? Fomos pra um outro lugar pra poder conversar melhor pois estávamos todos, completamente em estado de choque depois daquela.

No fundo, aquilo não era razão pra tanto big deal. Sempre desconfiei um pouco do C. – na verdade eu e a torcida do Flamengo. Creio que não era só dele que desconfiavam, deviam desconfiar de mim e do R. desde o princípio também. As razões eram óbvias: por sermos mais “mente aberta” com relação a milhares de coisas, por termos certos gostos um tanto quanto diversificados, por gostarmos de um humor um pouco mais ácido do que o convencional, por andarmos sempre em grupo, por sempre sobrarmos na escalação dos times de futebol da E.F., dentre outros pequenos clichês que – apesar de eu não gostar de admitir isso (porque não acho que devemos ser generalistas e preconceituosos) – entregavam que havia “algo de diferentchy” conosco.

Por muitos tempo esse assunto da homossexualidade foi meio que um tabu entre nós três. Não a homossexualidade alheia, mas sim a nossa, escondida e trancafiada a sete chaves. Os dois se descobriram juntos, tiveram as primeiras experiências juntos e confessaram suas crises e angústias um para o outro esse tempo todo. Teve um inesquecível dia em que fomos ao sítio do R. (quando estávamos no 2º ano do E.M.) e eu peguei os dois no pulo do gato. Eles juraram pra mim de pés juntos que aquilo era só carência, que nunca tinha acontecido e nem nunca mais iria acontecer. E eu fui proibido de tocar no assunto. Até recentemente, assim foi. Eu sofri por muito tempo calado, tentando negar os sinais que eu via graças ao meu gaydar super calibrado.

Se tem uma coisa pela qual eu me arrependeria caso tivesse me matado naquela fatídica noite de junho de 2010, seria de não ter vivido esse dia em Outubro de 2011. Isso é a comprovação do “It Gets Better”. Eu jamais poderia imaginar que meus dois amigos finalmente se abririam pra mim, que um dia eu poderia deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz com a minha consciência. Eu nunca fui louco, não tinha visto coisas ou criado teorias da conspiração da minha cabeça. Não havia mais nada de oculto. De agora em diante, teríamos todo um repertório de assuntos os quais eu poderíamos conversar abertamente sem se preocupar com repercussões.

R., o famoso capricorniano sobre o qual já escrevi aqui, nunca vi mais leonino dada a clareza, a sinceridade e exaltação com a qual conversava. Contou histórias que eu jamais esperei que saíssem de sua boca. Eu pude ver que em diversos momentos no passado ele quis ter sido sincero comigo, me “confessando” suas aventuras ainda que com nomes de pessoas e lugares trocados. E como eu fui bobo de pensar que meus dois melhores amigos só queriam me enganar. Se é que algum dia eu exigi que as pessoas fossem estritamente sinceras comigo, esse dia já passou e eu já me esqueci dele.

Minha autoestima subiu o Monte Everest naquela noite. Senti pela primeira vez na vida que eles – principalmente R., que sempre jogou às escuras comigo – estavam confiando 100% em mim. Ver as coisas por essa perspectiva me deu ânimo e coragem. Alguns dias depois nós fomos juntos numa buatchy gê-eli-esse (eu, virgem desse tipo de ambiente) e vi os dois pegando outros carinhas (me diverti muito, mas infelizmente continuo no zero a zero). Compartilhamos nosso vasto conhecimento a respeito de Bel Ami, Men at Play, Randy Blue, Sean Cody, algo que só um legítimo bando de viados poderia fazer.

Agora eu entendo tanta coisa que eu não entendia antes… Percebi que nosso grupo ainda é o mesmo, apesar de agora o contexto ser diferente. A depressão pela qual eu passei foi muito forte, muito intensa, foi (está sendo) difícil sair dela. Mas percebi que a mesma coisa também é válida para o o estado de espírito oposto. Me sinto mais confiante agora pra entrar na parte do “It Doesn’t Get Better”, que diz respeito aos meus problemas mais profundos – como por exemplo ir na buatchy e não me permitir ficar com ninguém. Mas isso são cenas dos próximos capítulos (?).

Essa música sintetiza o momento.

Hugs to everyone, that’s all for tonight.

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A edição perdida

Estava fazendo uma limpeza geral no meu quarto (sabe aqueles dias em que te dá a louca e você começa a abrir as portas, gavetas e os maleiros e sai jogando fora tudo que vê pela frente? Então…) e me deparei com uma coleção de revistas que eu comecei a fazer em 2006. A Nintendo World nº 73 foi a primeira – e está toda desgastada e irreconhecível agora – de muitas que marcaram a era dourada de minha vida. Se pensam que foi pelo conteúdo das revistas, estão uns 89% enganados. Foi por causa de uma pessoa. Uma garota.

Viciada em artigos nipônicos – animes, mangás, desenho, videogames – e foi quem me introduziu nesse mundo onde o “padrão” é as pessoas se travestirem com roupas improvisadas (feitas com materiais inusitados) de personagens de animes e se encontrarem nos “badalados” Anime Festivals. Uma exímia desenhista, jogadora de Zelda, Mario Kart e Smash Bros e amiga. Nossa amizade, que surgiu de uma forma talvez bastante natural como acontece entre os homens e as mulheres (eu era afim dela e ela não era afim de mim), começou no fim da 7ª série e durou até o fim da 8ª. Uma época memorável, que terminou de forma espetacular – tal como no conto da Cinderela – num baile (de “formatura”) do qual me recordo com minúcias até hoje.

No ano seguinte ela viria a mudar de colégio, de casa, de telefone, de e-mail (desconfio que até de mundo) e foi sem deixar nem uma mensagem SMS. Imaginam como eu fiquei? Descobri tempos depois que ela ainda vivia e estava em outro colégio da mesma rede que o meu porém num bairro distante e lá já estava envolvida por amigos – e isso incluiu um namorado. Tivemos alguns re-encontros no meio do caminho até eu concluir o 2º ano (e ela o 1º porque tinha tomado bomba) mas elo que formava nossa ligação já havia se arrebentado.

Ela lá, com os milhares de amigos que fez numa incrível velocidade geminiana e eu com meus poucos – mas valiosos – amigos aqui. E olhem que ainda tive a cara de pau de chamá-la para o baile de formatura do 3º ano em 2009 – forçando muito a amizade (já morta) – achando que teria coragem (ou vontade) de ficar com ela. Troféu EPIC FAIL versão pink pra mim né gente? Podia até ter ficado com ela. Mas todos sabem onde isso ia parar…

E eis que recentemente uma amiga minha: Giulia, escritora do blog “Divas Não Choram” (que no momento está fazendo faculdade de Letras), conseguiu um estágio no mesmo colégio onde nós estudamos a vida inteira. E ela descobriu que essa antiquíssima amiga (ou ex-amiga?) minha está trabalhando lá também.

No fundo, eu morro de vontade de ver ela de novo. Dizem que cortou o cabelo curtinho. E que agora está trabalhando – fiquei feliz que ela tomou um rumo na vida. Dias atrás estive lá na porta do colégio, bem pertinho da antiga casa dela. E me vieram recordações. E me surgiram as revistas. E me lembraram dela. E ela me lembrou de mim mesmo. E eu me lembrei na época mais feliz da minha vida. A época em que meus sorrisos nas fotos ainda eram espontâneos.

Tenho saudades dos 32 bits do GBA. Pokémon Emerald, um jogo retardado, para pessoas retardadas (desculpem-me os leitores que gostam), mas que eu dei meu fígado em oferenda pra convencer a minha mãe a comprar. Ôh, época boa!

Obs.: NÃO TENHAM FILHOS!

That’s all, folks.